CONHECIMENTO ECOLÓGICO LOCAL DE PESCADORES ARTESANAIS DO RIO JAGUARIBE E SUAS PERCEPÇÕES SOBRE A TRANSPOSIÇÃO DO RIO SÃO FRANCISCO
DOI:
https://doi.org/10.15628/geoconexes.2025.18702Palavras-chave:
conservação participativa, ictiofauna nativa, mudanças hidrossociais, pesca de subsistência, saberes tradicionaisResumo
O estudo analisou o conhecimento ecológico local (CEL) de pescadores artesanais do rio Jaguaribe (CE), articulando-o à transposição do rio São Francisco. Fundamentado na etnoecologia e na etnoictiologia, o trabalho investiga como saberes tradicionais dialogam com transformações hidrossociais e contribuem para estratégias de conservação. O objetivo foi compreender como esses conhecimentos influenciam a percepção sobre mudanças ecológicas e práticas pesqueiras. A pesquisa, de natureza aplicada e exploratória, adotou abordagem mista, com entrevistas semiestruturadas aplicadas a 29 pescadores entre dezembro de 2021 e fevereiro de 2022. Os dados foram tratados por estatística descritiva, testes não paramétricos e análise de agrupamento (k-means). Os resultados evidenciaram que o CEL é predominantemente construído pela experiência prática, com média de 4,3 espécies nativas citadas por pescador, apresentando correlação positiva com o tempo de atuação na pesca. Houve coincidência parcial entre espécies reconhecidas e capturadas, e 90% dos entrevistados expressaram percepções positivas sobre a transposição, associadas à maior vazão e ao retorno de espécies, sem associação significativa com variáveis sociodemográficas. Conclui-se que o CEL constitui um subsídio relevante para políticas de conservação participativa, funcionando como sistema adaptativo frente às mudanças hidrossociais regionais.
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