Falves Silva

Nos anos sessenta e setenta, Natal, chamada pelo poeta pernambucano, Jomar Muniz de Brito, de “A Londres Nordestina”, foi sacudida por uma revolução poética que chacoalhou a província.
Era o tempo das contestações utópicas, das lutas ideológicas e dos experimentalismos estéticos e existenciais que levaram toda uma geração de jovens a cruzar a fronteira do conservadorismo reinante na aldeia de Poty e antecipar o futuro.


(A REVOLUÇÃO DA IMAGEM)

Falves Silva foi um desses jovens contestadores. Um artista que em uma Natal provinciana (como sempre), junto com Moacyr Cirne, Anchieta Fernandes, Dailor Varela, Franklin Capistrano, Avelino Araújo, Bianor Paulino, Jota Medeiros, Lula Capistrano (entre outros) manteve vivo durante toda a segunda metade do século passado o espírito contestador das vanguardas estéticas. Um espírito expresso através de uma arte que não se domestica nem se reduz a padrões e convenções tradicionais.
Nascido na Paraíba, mas potiguar por simbiose, Falves construiu toda a sua carreira artística em Natal, uma eterna chácara de Cascudo. Sua obra, no entanto, atravessou o oceano e aportou em espaços da Europa, Japão, Estados Unidos e de vários países latino-americanos.


(UM OPERÁRIO DA ARTE DE VANGUARDA)

Influenciado pela pintura de Mondrian, pelos quadrinhos e pela poesia de Vladimir Dias Pino, Falves é um dos militantes mais ativos da arte de vanguarda. Transitou pelo poema processo, antecipou a internet com a arte correio, mergulhou fundo na poesia visual para transformar o papel em um espaço de presença e de identificação da sua própria criatividade.
Irônico, cínico, iconoclasta: Falves Silva é um artista híbrido, que vive entre a imagem, o traço do desenho, a reciclagem da colagem, a letra impressa no papel e a ideia fundamental de um projeto poético que sempre se reinventa e se reconstrói.


(A MARGEM: UM JORNAL DE VANGUARDA)

Nordestino por convicção, não se reduz aos estereótipos de uma poesia regional, nem se rende à caricatura de um Nordeste atávico, tradicional, primal, típico das montagens teatrais de um Ariano Suassuna. O Nordeste de Falves é uma terra do futuro, crua e trágica, que antecipa, no horizonte da vanguarda, todo o cosmopolitismo de uma arte que não se rende aos clichês, nem se contenta em ser recreativa.


(NAS TRINCHEIRAS DO POEMA PROCESSO)

Nossa entrevista com Falves Silva se deu na varanda da sua casa em Candelária; a mesma casa em que mora há muitos anos, de onde viu Natal crescer e se transformar, da bucólica Londres do Nordeste, dos sonhos de sua geração, até a caótica distopia urbana destes anos.
A arte de Falves Silva é cultura potiguar, mas vai além, no tempo e no espaço, das fronteiras políticas e culturais que construímos para confinar nossos artistas. Uma canção visual para a liberdade, na ordem humana da inquietação.


(QUEIMANDO A TRADIÇÃO)

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