Antônio Santana

O artista popular Antônio Santana, da Cidade de Ceará Mirim/RN, nos impressiona pela sua capacidade de representar, em um só tema, uma diversidade de significados carregados de uma profunda pluralidade estética, manifesta em um hibridismo rico de culturas distintas que interagem.

Santana é um escultor autodidata. Desenvolveu seu amor pela escultura após uma viagem a Natal, onde viu alguns escultores populares trabalhando em suas peças na rua, perto do estabelecimento comercial de um parente.

Sua primeira peça seguiu os cânones dos santeiros populares, que enchem as feiras livres de imagens sacras católicas, de virgens, santos, anjos e cristos ressuscitados ou mortos na cruz.

Mas há algo no trabalho de Santana que ultrapassa a mera reprodução litúrgica de imagens religiosas católicas. Fascinado pelo cinema e por temas como o cangaço, Santana introduz, em suas peças, cor, movimento, drama. Elas não são simples reproduções estáticas de ícones do mundo religioso.

(Fragmentos de um Barroco Moderno)

Os seus santos são moldados conforme a imaginação e a pesquisa do artista. Um São Francisco ora pode aparecer gordo, pequeno e com um bezerro nos ombros, parecendo uma figura barroca, ora pode ser esguio, quase esquelético, carregando nas costas um lagarto com calda estirada até os pés.

Estão no campo de cruzamento do imaginário livre de um artista forte e na icnografia arquetípica de nossa cultura mestiça, que mistura e ultrapassa as formas canônicas da tradição, enxertando em seu entorno doses poderosas de modernidade.

Pop, moderno, barroco e popular ao mesmo tempo, Santana se especializou em reproduzir Santas Ceias com figuras inusitadas, como os ex-governadores do Rio Grande do Norte ou os grandes mestres da MPB. Após ser desafiado por uma repórter, em uma feira de arte em Natal, se envolveu, com um faro midiático que poucos artistas populares parecem cultivar, com miniaturas. Foi produzindo figuras cada vez menores e mais detalhadas.

A Santa Ceia, obra esculpida em miniatura, transformou-se na sua marca. Os apóstolos da imagem cristã tradicional foram substituídos por orixás do Candomblé, partilhando da mesma mesa com músicos, poetas, artistas de cinema ou até mesmo personagens da política do Rio Grande do Norte.

(Os Orixás de Santana)

Seu interesse pelos orixás o fez pesquisar em livros, DVDs e sites na internet tudo o que pôde encontrar sobre a história dessas figuras, que marcam a presença da africanidade no litoral brasileiro. Mas o impulso criativo do artista fala sempre mais alto e Santana não se contentou apenas em reproduzir os Orixás no modelo canônico das figuras religiosas que vinham da Bahia.

Todas as suas peças são esculpidas com instrumentos rudimentares, como lâminas de facão ou serra. A matéria prima varia entre a argila e a madeira, incorporando também outros elementos e materiais acessórios.
As imagens de Santana são concebidas em movimento, muitas vezes com o corpo à mostra, para ressaltar a força natural dos adeptos dos cultos afro-brasileiros. Observando as séries sobre os Orixás, não sabemos se representam as potências naturais, os elementais da África ou seus adeptos humanos, possuídos na dança expressiva de seus rituais de transe.

(Como nasce um escultor)

Santana tem um grande sonho. Ele luta para entrar no livro dos recordes – Guinness Book. Ele consegue esculpir a imagem da Santa Ceia em uma imburana de meio centímetro de altura, por um centímetro de base. Muitas de suas figuras chegam a ter apenas três milímetros de base.

Fizemos nossa entrevista na garagem da sua casa e fomos recebidos por uma profusão espantosa de figuras expressivas, intensas, distorcidas, barrocas, expressionistas. Auxiliado pelo pesquisador Gibson Machado, que o ajuda na pesquisa de imagens pela internet, Santana é um escultor que usa os meios visuais do cinema e dos quadrinhos para dimensionar suas figuras, muitas vezes, desproporcionais, com braços e mãos distorcidas em relação ao resto do corpo, em carregada vertente expressionista, como se estivessem sendo construídas não para simular uma perfeição natural, mas para dar vasão aos próprios pensamentos e sentimentos do artista.

(Entre o Pop e o Popular )

O acesso facilitado às informações, em uma sociedade rápida e em permanente estado de transformação faz com que os artistas, de uma forma geral, sejam atravessados por diferentes divisões e antagonismos sociais que, consequentemente, produzem uma variedade de diferentes “posições do sujeito” – isto é, identidades. Santana é um desses artistas, marcado pela diversidade de suas inúmeras identidades estéticas.

Com várias peças exportadas para países como Espanha, Portugal e Estados Unidos, carrega consigo os traços da cultura do seu lugar de origem e suas tradições, mas esses traços dialogam, são interconectados com elementos de outras culturas, e é nesse hibridismo, nesse sincretismo, nessa fusão entre diferentes tradições culturais que a estética da sua criação eclode.

“Não gosto de parar no tempo. A arte é dinâmica”. Diz o artesão.

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