Congo de Guerra

Fomos a comunidade de Taboão, em Ceará Mirim na companhia de Gibson Machado, pesquisador e ativista cultural do vale do Ceará Mirim, para registrar o depoimento de Mestre Tião e Zé Baracho, respectivamente mestre e embaixador do Congo de Guerra.

O Congo vem sendo apresentado desde trezentos anos passados. É uma espécie de teatro, onde o espectador precisa imaginar o cenário evocado, os reinos africanos de outrora: Os reis orgulhosos e seus fiéis guerreiros. Todos os personagens assumem papeis dramáticos.  A narrativa se dá a partir de temas religiosos e temas sociais, como o amor, a escravidão, o trabalho e costumes antigos.

(Mestre Tião e a história do Congo de Guerra)

Embora existam diversificações no enredo, variando de região pra região, levando a se criar sinônimos: Congo(s), Congada (s), pretinhos-do-congo, etc. Em todos é possível identificar as raízes formadoras (embaixadas e nações africanas). Mantendo o mesmo fio condutor, ou seja, as características gerais que permitem identificar o folguedo como um Congo.

Desde o Brasil colônia, elegia-se entre os negros, um rei e uma rainha, cargos honorários, aceitos pela igreja e apoiados pelos senhores escravocratas. O régio casal de negros era escoltado por seus companheiros de senzala até a igreja onde acontecia a coroação, com muita música e dança, estas, por sua vez, variavam de acordo com as etnias africanas e influências regionais. Rufas, rabecas e maracás fazem o fundo musical, juntamente com as cantigas que ora são; toadas de viagens, outras louvores a virgem do Rosário (Nossa Senhora do Rosário) ou louvações ao nascimento do Messias e em muitos momentos, cantos de chamadas de atenção aos moradores do lugar. Há também a presença de cantigas de possível inspiração totêmica e cantares lúdicos irônicos. A variedade de peças cantadas é imensa e se sucedem até o momento da representação das embaixadas, ponto alto do folguedo.

Ao questionarmos alguns brincantes do Congo, sobre a sua dança, obtivemos as seguintes respostas: “Estamos perdendo uma batalha, o Congo de Guerra está morrendo. É preciso que a nova geração siga o exemplo do embaixador, cantando com emoção”. Diz O mestre José Baracho, embaixador do Congo de Guerra e Poeta do Vale do Ceará Mirim.  E acrescenta: “A velha Taboão há de ser lembrada.”

(O futuro do Congo de Guerra do Engenho Guanabara)

O mestre Tião (atual mestre do Congo de Guerra), hoje com 96 anos, nascido em Ceará Mirim, em 14 de maio, filho do antigo mestre João da Rocha. É morador, desde menino da comunidade de Taboão, município desta cidade e trabalhador, por longos anos, do engenho da família Sobral.  Alerta: “Um dia eu morrendo e também o grande José Severino (outro brincante), o grupo Congo perde roteiro, Ceará Mirim perde a cultura, ficando só uma lembrança obscura, de dois velhos bem nordestinos”. Logo em seguida, o “embaixador” José Baracho, acrescenta: “Talvez se acabe os Congos guerreiros, mas, as lutas dos dois Congueiros, ficarão gravadas nesta cidade”. Sendo indagado ao atual mestre, Seu Tião, sobre o que ele achava da possibilidade de outros grupos darem continuidade à brincadeira, e estes, fazerem alterações na representação, ele respondeu: “Pode mudar as vestimentas, o lugar onde se dança, acrescentar fatos, assim como eu mesmo fiz, ao receber o Congo de Taboão do meu pai; ouvi notícias no rádio sobre movimentos revolucionários da década de 30, e acrescentei elementos a este auto, mudando inclusive o nome, passando a se chamar Congo de Guerra”.

Mudanças podem ser feitas contanto que a jornada (passos da dança)  permaneça. É a dança que mantém a tradição.

(O cando e a Dança)

Em nossa visita à Ceará Mirim, percebemos a preocupação dos mestres no que diz respeito à continuidade da sua dança. Eles têm a consciência e o entendimento das transformações que podem vir a acontecer para que a dança se mantenha viva. O que importa é que o fio condutor da narrativa não se perca.

(Tradição, mudança e continuidade)

Assim como existem formas de vida naturais as diversas expressões culturais humanas tem também seu tempo histórico. A grande questão é saber como manter viva a tradição sem perder o fio do tempo, que traz para as comunidades humanas, novas demandas e novas perspectivas.

Mestre Tião e Zé Baracho talvez, enquanto o tempo da vida permitir, possam nos ensinar como fazer isso.

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